Quando uma mulher acumula poder: Ludmilla Fiscina e a face masculina da disputa política em Alagoinhas

 


Foto: Rodrigo Rattes

A política de Alagoinhas e de boa parte da região tem uma característica que atravessa gerações: os principais espaços de poder, as grandes disputas eleitorais e a formação das principais lideranças políticas foram historicamente protagonizados por homens. É nesse território que Ludmilla Fiscina (PSD) vem avançando.

Eleita deputada estadual pela primeira vez em 2022, com 60.921 votos, Ludmilla chega à disputa pela reeleição quatro anos depois ocupando uma posição bastante diferente daquela em que iniciou sua trajetória nas urnas. Na primeira eleição, carregava consigo a força do grupo político liderado pelo então prefeito de Alagoinhas, Joaquim Neto. Hoje, chega à campanha com um mandato para apresentar, presença ampliada em diferentes municípios, novas alianças e espaço dentro de uma das maiores estruturas partidárias da Bahia.

Esse crescimento político aconteceu paralelamente ao aumento da exposição e dos ataques direcionados ao seu nome. Há uma característica que chama atenção nesse movimento: as principais ofensivas públicas contra a parlamentar neste período têm homens como protagonistas.

De aposta política local a liderança regional em construção

Alagoinhas teve papel determinante na eleição de Ludmilla. Dos 60.921 votos conquistados pela parlamentar em toda a Bahia, 25.312 vieram somente do município, representando mais de 40% de toda a sua votação. Ao mesmo tempo em que demonstrava uma força eleitoral expressiva em sua cidade natal, o resultado apresentava um desafio para o primeiro mandato: ampliar essa presença para além das fronteiras de Alagoinhas.

Nos quatro anos seguintes, a atuação da parlamentar avançou por diferentes municípios do Litoral Norte, Agreste e outras regiões da Bahia. Inhambupe, Catu, Sátiro Dias, Pedrão, Aramari, Jandaíra, Esplanada, Itapicuru e Entre Rios estão entre as cidades que passaram a aparecer no mapa político do mandato, seja por meio de emendas, equipamentos, articulações ou agendas da deputada.

Segundo balanço divulgado pelo mandato, somente na saúde foram destinados 57 equipamentos à rede pública, incluindo 28 ambulâncias e seis veículos para Tratamento Fora do Domicílio (TFD), além de kits para unidades básicas, equipamentos hospitalares e veículos administrativos. Parte desses investimentos também aparece registrada em documentos oficiais do orçamento estadual.

A saúde tornou-se a principal vitrine do primeiro mandato, mas a atuação também alcançou agricultura familiar, educação, assistência social, inclusão e segurança pública. Tratores, implementos agrícolas e reservatórios de água estão entre os equipamentos destinados a municípios e associações do interior.

Na Assembleia Legislativa, Ludmilla apresentou projetos e indicações relacionados à saúde mental, proteção às mulheres, pessoas com deficiência, autismo, educação, segurança pública, acessibilidade e proteção animal. Uma de suas iniciativas relacionadas à conscientização, segurança e educação para o trânsito avançou na ALBA e foi transformada em lei estadual.

O movimento revela uma estratégia política que pode ser medida nas eleições deste ano: transformar Alagoinhas, que em 2022 concentrou boa parte dos votos da parlamentar, no centro de uma base eleitoral mais ampla e regionalizada.

O poder mudou de escala

Em 2026, essa construção ganhou um novo componente. Ludmilla deixou o PV e ingressou no PSD, partido integrante da base do governador Jerônimo Rodrigues (PT) e uma das principais forças partidárias da Bahia. Pouco depois, passou a ocupar a vice-liderança da bancada da legenda na Assembleia Legislativa.

A mudança vai além da troca de sigla. O PSD oferece uma estrutura política com forte presença municipal e reúne prefeitos, vereadores e outras lideranças espalhadas pelo estado. Para uma deputada que busca consolidar sua presença regional, a nova configuração partidária amplia também as possibilidades de articulação.

Ludmilla chega, portanto, à eleição de 2026 em uma condição diferente da candidata estreante de quatro anos atrás. Agora existe um mandato estadual, uma votação superior a 60 mil votos como referência, bases municipais construídas ao longo da legislatura, interlocução com o Governo do Estado e uma estrutura partidária maior.

Uma eventual reeleição, especialmente se acompanhada de crescimento eleitoral e expansão de sua votação regional, pode consolidá-la entre as principais lideranças políticas do campo governista no Litoral Norte e Agreste Baiano.

Esse cenário produz consequências que ultrapassam a eleição deste ano. Uma deputada reeleita e fortalecida passa a ter maior capacidade de influenciar a formação de alianças municipais em 2028, participar da construção de candidaturas, ampliar sua presença nos municípios e ocupar espaço nas articulações políticas para 2030.

Na política, esse crescimento nunca acontece de forma isolada. A conquista de uma nova liderança municipal altera a correlação de forças de uma cidade; a expansão para outro município coloca diferentes grupos em disputa pelo mesmo eleitorado; e o fortalecimento de um nome para projetos futuros inevitavelmente interfere nas pretensões de outras lideranças que atuam no mesmo território.

É nesse ponto que a trajetória de Ludmilla ganha outra dimensão. A discussão deixa de envolver somente a presença de uma mulher na política e passa a tratar da consolidação de uma mulher em uma posição efetiva de poder.

O crescimento e a reação dos adversários

É também nesse momento que aumenta o barulho político em torno do nome de Ludmilla. Nos últimos meses, a deputada passou a ser alvo recorrente de publicações, acusações e questionamentos produzidos por adversários e atores do debate político regional.

Os principais ataques públicos direcionados a Ludmilla neste período têm sido protagonizados por homens. O fato chama atenção justamente porque a parlamentar tenta consolidar sua posição em um ambiente político que, historicamente, teve homens no comando dos principais grupos, partidos e projetos eleitorais da região.

Isso não significa que um homem, ao criticar uma mulher, pratique automaticamente violência política de gênero. Ludmilla administra recursos públicos por meio de emendas, toma decisões políticas, estabelece alianças, integra a base de um governo e disputa votos. Seu mandato pode e deve ser questionado.

A fronteira aparece quando o debate deixa de tratar das ações da parlamentar e passa a buscar sua desqualificação pessoal, abandonando números, decisões, recursos e posições políticas para atacar sua capacidade, sua legitimidade ou utilizar critérios que dificilmente seriam empregados contra um homem na mesma posição.

É nesse ponto que uma distinção se torna necessária: nem toda crítica é violência, assim como nem todo ataque pode ser apresentado simplesmente como crítica política.

Uma mulher disputando um território historicamente masculino

Ludmilla também não precisa ser transformada em vítima para que esse debate exista. Pelo contrário: é justamente porque conquistou poder que precisa ser submetida ao escrutínio público. Quanto maior a influência de um agente político, maior deve ser a fiscalização sobre seus atos.

O que não pode ser confundido é fiscalização com desqualificação.

Sua própria produção legislativa apresenta uma característica particular. Saúde, direitos das mulheres, inclusão, autismo, acessibilidade, educação e proteção social aparecem entre as pautas levadas pela parlamentar à Assembleia, enquanto a saúde pública se consolidou como principal vitrine de suas entregas regionais.

É nesse cenário que Ludmilla entra em uma nova eleição: não mais como a aposta política que buscava chegar à Assembleia em 2022, mas como uma deputada que, quatro anos depois, disputa a permanência em um espaço de poder que passou a ocupar.

Fonte Alagonews

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