Moraes entra na lista da Lei Magnitsky; entenda como funciona e conheça casos pelo mundo
Fotos: Rosinei Coutinho/STF
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, foi oficialmente incluído, nesta quarta-feira (30), na lista de sanções da chamada Lei Magnitsky. De acordo com especialistas, a aplicação da legislação norte-americana impõe restrições severas e efeitos comparáveis a uma "morte fiscal do CPF".
Foto: Reprodução / OFAC
Com a medida, Moraes passa a ser alvo de sanções do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos. Entre as restrições, está a proibição de que empresas americanas, incluindo bancos e instituições financeiras, realizem qualquer tipo de transação com o ministro. Também são previstas medidas como congelamento de bens, proibição de entrada nos Estados Unidos e a inclusão do nome na lista de Indivíduos Especialmente Designados (Specially Designated Nationals - SDNs).
As instituições bancárias que mantiverem vínculos financeiros com pessoas sancionadas correm o risco de perder o acesso ao sistema financeiro norte-americano, uma das penalidades mais severas impostas pela OFAC.
Segundo o secretário Scott Bessent, do Departamento do Tesouro, a sanção foi motivada por abusos cometidos no exercício da função. Ele afirmou que Moraes utilizou o cargo na Suprema Corte para "autorizar detenções arbitrárias preventivas e reprimir a liberdade de expressão". Bessent destacou ainda que o governo dos Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, seguirá atuando para "responsabilizar aqueles que ameaçam os interesses dos EUA e de seus cidadãos".
“Moraes é responsável por uma campanha opressiva de censura, detenções arbitrárias que violam direitos humanos e processos politizados — inclusive contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. A ação de hoje deixa claro que o Tesouro continuará a responsabilizar aqueles que atentam contra as liberdades dos cidadãos norte-americanos”, disse o secretário, em nota oficial.
De acordo com apuração de Paulo Cappelli, outros dois ministros do STF também estão sob análise do governo norte-americano: Luís Roberto Barroso e Gilmar Mendes. Para os EUA, Barroso, por ocupar a presidência do STF, teria responsabilidade institucional sobre decisões tomadas por Moraes. Já Gilmar Mendes estaria no radar devido à influência que exerce nos bastidores da Corte, por ser o decano do tribunal. A estratégia da Casa Branca seria observar a repercussão da medida contra Moraes antes de ampliar as sanções a outros integrantes da Corte.
Segundo informações disponíveis no site oficial do governo dos Estados Unidos, mais de 670 pessoas e entidades já foram sancionadas com base na Lei Magnitsky Global entre 2017 até 2024. Entre os alvos estão ditadores, magistrados, empresários e políticos de diversas partes do mundo.
ORIGEM
A Lei Magnitsky foi pensada a partir de um caso que escancarou as práticas tidas como autoritárias do sistema judiciário russo. Sergei Magnitsky era advogado do fundo de investimentos Hermitage Capital Management, à época o maior fundo estrangeiro atuando na Rússia. Durante uma auditoria, ele descobriu que autoridades do governo haviam se apropriado ilegalmente de três subsidiárias do fundo, alegando dívidas fiscais fictícias. Em seguida, conseguiram um reembolso fraudulento de cerca de 230 milhões de dólares, desviados diretamente do Tesouro russo.
Após fazer a denúncia, Magnitsky, invés de contar com a proteção, foi detido em 2008 pelos próprios agentes que havia delatado. Ele passou quase um ano preso sem julgamento, até morrer em novembro de 2009. Uma investigação conduzida pelo Conselho de Direitos Humanos da Rússia concluiu que ele foi preso de forma ilegal, teve o devido processo negado e sofreu abusos físicos dentro da prisão.
Relatórios oficiais mencionados no texto da própria lei relatam que Magnitsky foi espancado por ao menos oito agentes prisionais com cassetetes no dia de sua morte. Também foi constatado que a equipe médica chamada para socorrê-lo foi impedida de entrar em sua cela por mais de uma hora, tempo suficiente para que ele não resistisse aos ferimentos. Além disso, o advogado não recebeu os cuidados médicos necessários durante os meses em que esteve detido, mesmo apresentando graves sintomas de enfermidade.
Sergei Magnitsky | Foto: Reprodução/AFP
A repercussão do caso foi global. O empresário Bill Browder, então gestor do fundo representado por Magnitsky, iniciou uma campanha internacional para responsabilizar os envolvidos. A pressão levou o Congresso dos Estados Unidos a aprovar, em 2012, a primeira versão da Lei Magnitsky, voltada especificamente a funcionários do governo russo envolvidos no caso. Em 2016, a legislação foi ampliada com a criação do Global Magnitsky Act, permitindo sanções a qualquer pessoa envolvida em graves abusos de direitos humanos ou corrupção, independentemente do país. Um ano depois, 2017, já sob a presidência de Donald Trump, a norma foi fortalecida por ordem executiva, permitindo bloqueios financeiros, restrições migratórias e sanções comerciais.
OUTROS CASOS
No site oficial do governo dos Estados Unidos, o número de pessoas e entidades sancionadas pela Lei Magnitsky Global que foi divulgado ultrapassou a marca de 740 até março de 2025. Os alvos incluem ditadores, juízes, empresários e políticos de diversas partes do mundo.
Um dos primeiros e mais simbólicos sancionados foi Ramzan Kadyrov, líder da República da Chechênia desde 2007. Ele foi incluído na lista em 2017 por ordenar prisões arbitrárias, torturas e execuções extrajudiciais, especialmente contra opositores políticos e a comunidade LGBT. Kadyrov também foi relacionado a desaparecimentos forçados e assassinatos de críticos, como o de Boris Nemtsov. Três anos depois, em 2020, as sanções foram estendidas à sua esposa e filhas, acusadas de usufruir dos benefícios gerados por sua rede corrupta. Em reação, Kadyrov desafiou publicamente os Estados Unidos ao publicar uma foto no Telegram sorrindo com metralhadoras nas mãos. Apesar das restrições impostas, ele segue como líder do país, apoiado pelo presidente russo Vladimir Putin.
Ramzan Kadyrov | Foto: Reprodução / AFP
Outro caso é o de Yahya Jammeh, que governou a Gâmbia por 22 anos após tomar o poder por meio de um golpe militar em 1994. Durante sua gestão, Jammeh criou uma força paramilitar chamada Junglers, usada para perseguir, torturar e eliminar opositores. De acordo com informações baseadas na Comissão da Verdade e Reconciliação da Gâmbia (TRRC) atribuiu ao seu regime mais de 240 mortes, além de desaparecimentos, estupros e perseguições religiosas. Jammeh também foi acusado de desviar mais de 50 milhões de dólares do dinheiro público. Ele foi sancionado em 2018, juntamente com sua esposa Zineb Souma Yahya Jammeh. O ex-presidente vive atualmente no exílio, na Guiné Equatorial.
Yahya Jammeh | Foto: Issouf Sanogo/AFP
Na China, dois altos membros do Partido Comunista em Xinjiang também figuram entre os sancionados. Wang Mingshan e Zhu Hailun foram responsabilizados por liderar políticas de repressão contra a minoria étnica uigur, incluindo detenções arbitrárias em massa e o estabelecimento de campos de reeducação. Ambos tiveram os bens bloqueados, foram proibidos de entrar no território americano e estão impedidos de manter relações comerciais com entidades dos Estados Unidos. Em 2021, a União Europeia e o Reino Unido também adotaram medidas semelhantes contra os dois dirigentes.
Wang Mingshan e Zhu Hailun | Fotos: Divulgação
A juíza russa Natalia Mushnikova também foi incluída na lista de sanções por seu papel no encobrimento da morte de Sergei Magnitsky. Mushnikova negou à família de Magnitsky o direito a uma autópsia independente, retardando esclarecimentos e contribuindo para a obstrução das investigações. Apesar disso, ela continua atuando na magistratura em Moscou, sem sofrer processos adicionais.
Outro nome incluído foi o de Kassem Mohamad Hijazi, despachante aduaneiro que operava na tríplice fronteira entre Paraguai, Brasil e Argentina. Hijazi foi acusado de liderar uma complexa rede de lavagem de dinheiro ligada ao narcotráfico. Conforme apurado pelo Bahia Notícias com base em documentos da OFAC, ele foi adicionado na lista SDN e preso no Paraguai em 2021, extraditado para os Estados Unidos em 2022 e, após se declarar culpado, foi liberado e retornou ao Brasil, onde vive atualmente com a família em Foz do Iguaçu.
Kassem Mohamad Hijazi | Foto: Senad/PY/Divulgação
Na Nicarágua, Roberto José Rivas Reyes, ex-presidente do Conselho Supremo Eleitoral, foi sancionado em 2017 por orquestrar fraudes eleitorais e enriquecer ilicitamente durante os governos de Daniel Ortega. Seus bens foram congelados nos Estados Unidos, e ele passou a viver recluso, evitando aparições públicas. Ele morreu em 2022 por complicações da Covid-19, ainda sob sanções e sem ter sido responsabilizado judicialmente.
Outro caso marcante foi do senador dominicano Félix Bautista, que foi sancionado em 2018 sob a acusação de desviar verbas públicas destinadas à reconstrução do Haiti após desastres naturais. Cinco empresas ligadas a Bautista também foram alvo das medidas. Mesmo após as sanções, ele segue na vida pública.
Félix Bautista | Foto: Reprodução / Redes sociais
Sigal Mandelker, subsecretário do Tesouro dos EUA, declarou que as sanções fazem parte de uma campanha contínua para responsabilizar autoridades e indivíduos envolvidos em corrupção e violações de direitos humanos.
“O senador Félix Bautista usou sua posição para se beneficiar financeiramente de esforços humanitários relacionados à reconstrução do Haiti. Já o general Bun Hieng comandou uma unidade cambojana envolvida em uma série de abusos de direitos humanos e foi pessoalmente implicado em ataques contra várias pessoas, incluindo um cidadão americano”, afirmou Mandelker.
Fonte: Bahia Noticias
Altamirando de Lima,
Radialista DRT 5842 Tel (75) 981761290
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